Premiações

Por “Ninguém falou que seria fácil”, Felipe Rocha ganhou os prêmios Prêmio Shell 2011, APTR 2011 e Questão de Crítica 2011 na categoria autor.

“Ninguém falou que seria fácil” também foi indicada ao Prêmio Questão de Crítica em direção, elenco e espetáculo. Segundo o crítico teatral Lionel Fischer, a peça foi um dos destaques do primeiro semestre de 2011 em três categorias – texto, direção e iluminação.

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Um momento privilegiado de bom teatro

Inteligente e original, peça é um exemplo da nova dramaturgia
Bárbara Heliodora

É mais do que gratificante assistir a uma peça original, inteligente, com conteúdo e divertida, de um jovem autor nacional; “Ninguém falou que seria fácil”, de Felipe Rocha, é tudo isso, como pode ser constatado no Teatro Maria Clara Machado (Planetário) até o fim de abril. Toda uma série de episódios, que nascem de forma aparentemente aleatória mas na verdade estão controlados por mão forte, apresenta variados aspectos de comunicação humana, principalmente dentro do quadro familiar. Cada segmento, é preciso dizer, tem sua própria dinâmica, seu próprio e vivíssimo diálogo, tudo isso interpretado por um elenco de três atores que mudam de personagem e funcionalidade, compondo um todo coeso, que transmite o que o autor dizer. A maior prova da qualidade da peça é a rapidez com que a plateia se integra com uma dramaturgia de considerável originalidade. A única restrição possível seria a de a obra se prolongar um pouquinho mais do que aquilo que seria necessário, pois no final alguma coisa passa a impressão de estar sendo reapresentada.

Arena bem aproveitada
A encenação é despojada, deixando o campo livre para os atores. A cenografia de Aurora dos Campos é mínima e funcional, os figurinos de Antônio Medeiros se encaixam bem no espírito do texto, a luz de Tomás Ribas, firme na colaboração com a agilidade da ação, e a direção musical de Rodrigo Marçal também está em boa sintonia com o todo. A direção, compartilhada pelo autor Felipe Rocha e por Alex Cassal, tem toda a agilidade que o texto requer e aproveita o espaço da arena com bastante eficiência. O elenco, formado por Felipe Rocha, Renato Linhares e Stella Rabello, consegue sustentar o ar de improvisação, ou até mesmo de brincadeira, em um trabalho que sem dúvida foi cuidadosamente detalhado, com destaque para a fluência com que passam de um personagem a outro, mudando função, sexo e idade sem qualquer hesitação ou demora. “Ninguém falou que seria fácil” é um momento privilegiado de teatro e razão para comemorações quando se fala da nova dramaturgia brasileira.

O Globo | Segundo Caderno – 15 de abril de 2011

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Prêmios merecidos

Vencedor absoluto dos três maiores prêmios de teatro do Rio Janeiro, a saber, o Shell, o APTR e o novo (e bem-vindo) Questão de Crítica, “Ninguém falou que seria fácil” é o texto (encenado) do ano. Um dos motivos, talvez, o principal, seja o fato de, em 2011-2012, mostrar que o teatro do absurdo ainda dá conta de explicar o mundo, permite que nos identifiquemos com seus personagens e ainda apresenta situações que conhecemos bem. No ano em que se comemora os 100 anos de Nelson Rodrigues (1912-1980) e se atribui a Jô Bilac a responsabilidade de ser seu sucessor, no Galpão Gamboa nos encontramos com um novo Eugène Ionesco (1909-19994) ou, mais atual, um Jorge Diaz (1930-2007) brasileiro. Como nos célebres “A cantora careca” e “Desvario”, em “Ninguém falou que seria fácil”, o dramaturgo é um deus que olha o universo (dos seus personagens) de cima, jogando, brincando com eles como se fossem meros e tolos divertimentos, sem qualquer lógica ou responsabilidade. Daí sua metáfora para o mundo (real?) além da narrativa: por que uma história lógica com princípio, meio e fim numa vida com tantos acontecimentos absurdos? Não há liberdade, porque ela é o contrário de prisão. Não há início, porque ele antecede o fim. Não há certezas, porque elas são as respostas para as dúvidas. As coisas apenas há: personagens que entram sem ter saído, meios de histórias e figuras que pairam. Esse é o contexto do premiado texto e, também, da meritosa produção dirigida por Felipe Rocha e Alex Cassal.
Personagem, tempo e espaço: cada elemento ocupa um canto de um triângulo equilátero. Felipe Rocha, Renato Linhares e Stella Rabelo, na interpretação de diversos personagens, estabelecem positivamente lugares múltiplos, tempos que não se conectam e apresentam características contraditórias. Em todos, está disponível um excelente trabalho corporal, uma profunda investigação sobre diferentes registros vocais, além de, em conjunto, estar expresso um vibrante desenho de movimentação no palco de forma a estabelecer, sempre e novamente, mais e mais relações. Completamente aberto, sem rotunda, pano de boca ou bambolinas, o espaço cênico foi organizado de forma a providenciar múltiplos lugares dramáticos. No entanto, além dos previstos, novos surgem, atualizando a obra ao longo de toda a encenação. A história evolui na medida em que se estrutura pelo modificar-se constante e progressivo. A dramaturgia faz rir, faz emocionar, mas, sobretudo, dá cara e voz para reflexões sérias do mundo que representa. De repente, Stella Rabelo entra em cena com o mesmo vestido Mondrian com que estava na abertura da peça. Talvez essa seja a marca de uma circularidade que definirá o fim da apresentação. Ledo engano: mais está por vir e o retorno do vestido pode ter sido apenas um déjà vu, como tantos.
Os aspectos estéticos do espetáculo agem de forma bastante contribuitiva. São leves, interessantes, bonitos. Os figurinos de Antônio Medeiros permitem identificar auto-referências e o vestido Mondrian é só um exemplo. Roupas de baixo, mochilas e sapatos, em cada detalhe é possível estabelecer relações que se mostram internas ao espetáculo a que se assiste. A luz de Tomás Ribas age casada com o cenário de Aurora dos Campos: enquanto um oferece o espaço o outro constrói o lugar. Na trilha sonora, Rodrigo Marçal auxilia os personagens no desafio de não se apegar a nenhuma figura, mas avançar no constante encontro/abandono de opções em processo ascendente. Se o ritmo cai quando se está mais próximo do fim, é porque o público já sentiu a estranheza do início, já se acostumou com a vertiginosa loucura do enredo e da encenação e, então, precisa da catarse, que só terá espaço para acontecer após o fim da peça. Uma vez que “Ninguém falou que seria fácil” não é um espetáculo dramático, a manutenção do ritmo não é tarefa dos fatos, mas dos acontecimentos. O fim vem em boa hora, no limite talvez. Após ele, o aplauso e os prêmios merecidos.
Rodrigo Monteiro no blog Crítica Teatral

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É como uma brincadeira de criança

Dia 30 de agosto, no Centro Cultural Matarazzo, o grupo Foguetes Maravilha apresentou a peça “Ninguém Falou que seria Fácil”, com direção de Alex Cassal e texto e co-direção de Felipe Rocha.

A estrutura da peça se apresenta, logo de início, toda muito fluida. Seja pelo cenário, muito informal, que o público não se sente constrangido em atravessar logo que entra (e, eventualmente, enquanto sai), seja pela entrada do primeiro ator em cena, que se entra, massageia os pés, conversa com a produção, observa os espectadores enquanto terminamos de nos ajeitar. Aí já se insinua uma das características principais que estará presente ao longo de todo o espetáculo: a convenção da cena é toda escancarada, vai se estabelecendo diante dos olhos do público, como se fosse sendo construída ali, naquele momento, sem nunca ter existido antes.

É como uma brincadeira de criança que os atores jogam na cumplicidade com o público – e qualquer um que conviva com crianças ou tenha uma memória honesta vai saber que brincadeira, pra uma criança, é uma coisa seríssima. Seríssima! Há regras e uma ética de conduta que não pode ser rompida. Não se diz não a uma proposta; não se manipula a brincadeira em causa própria; não se exclui o parceiro por medo do que ele traz. Qualquer rompimento desse trato, aí sim, será punido com a exclusão – castigo máximo para quem quer brincar, afinal de contas.

Assim (como em qualquer brincadeira que se preze), a palavra constrói: o falado é verdade e acontece. As relações se estabelecem e se modificam, personagens aparecem e desaparecem, sem que, ao mesmo tempo, nunca se deixe de ver o ator junto com seus personagens – não direi “à frente” ou “por detrás”, para não dar uma ideia de hierarquia ou importância maior de um ou de outro, personagem ou ator. Eles estão em cena, eles constroem a narrativa, eles modelam uma linha do tempo muito particular, cheia de derivações e paralelismos, à qual alguém que sinta muita necessidade disso pode inclusive atribuir linearidade: a história de um pequeno núcleo familiar de pai, mãe e filha, que se desmancha, busca se reencontrar, é atravessado pela morte do pai, se resolve (?) na história do neto.

Esta poderia ser uma sinopse da peça; ao mesmo tempo, não faz a menor diferença. O que se vê ali, antes de tudo, é o retrato de uma geração. Das pessoas que hoje estão com vinte, trinta, quarenta anos de idade, para quem já é normal ser filho de pais separados, ser um casal separado com filhos, e a crise que isso gera já não tem nenhum cunho social ou moralista: são as falhas de continuidade da história pessoal, as ausências marcadas na personalidade, o peso da inversão de ter de ser mais forte que aquele que deveria ser seu forte – um pai que tenta ser maior que uma chupeta, e não consegue dar dois passos para a frente.

Uma geração que tem vontade de ficar parada, que tem ânsia de silêncio, que não sabe como lidar com a pressão de poder tudo – tudo – desde que. Assim, sem complemento. A nossa potência é, ao mesmo tempo, um monstro que nos espreita. No desespero do medo, projeta-se toda a possibilidade de felicidade no outro, que poderá encontrar em mim algo que eu jamais saberei o quê, e então… Então aquele, que eu responsabilizo por fazer a minha vida acontecer, tem de se tornar meu, minha propriedade, não importa a que custo; sem esse outro, a quem eu vou culpar quando tudo chegar em nada?

O público acompanha fascinado a dramaturgia que parece ir se construindo diante de seus olhos – e ri. Eu me pergunto: ri de quê?! Da crueldade das relações que se esfacelam, do medo de duas crianças sozinhas no escuro? Ri por aquilo não estar acontecendo com elas, e sim com outro? Mas então eu entendo porque o público ri. Porque tem leveza, porque é bom, é bem feito. Transgride com inteligência os clichês e o convencionalismos dos papéis sociais. Nos escancara, diante de nós mesmos; nos reconhecemos, e achamos graça. Ainda assim, é uma peça de uma tristeza infinita. Tanta solidão, tanta expectativa.

O cenário de poucos objetos é muito bem concebido, seja pela praticidade que oferece, colocando-se totalmente a serviço do jogo de cena, seja pela sua pela sua funcionalidade, no que concerne à construção dos incontáveis ambientes que se vão fazendo durante o desenrolar da peça. Cada objeto é ressignificado inúmeras vezes, e o espaço cênico é explorado em todas as possibilidades de linhas, recortes e pontos de vista – mais do que a organização da platéia em semi-arena faria supor. Esta riqueza de exploração também se apóia, com segurança, em um trabalho de iluminação não só eficiente, mas também altamente provocativo com relação à imaginação dos espectadores.

Embora se deva dizer que a montanha russa de emoções em que a peça nos coloca – tristeza, alegria, zombaria, amargura, e de novo alegria, etc., etc., se sucedendo com muita velocidade – , a certa altura, cansa. Não que não seja bom ainda, ou que deixe de ser interessante, pelo contrário. Mas quando parece que a história entra em resolução, e daí surge como que uma nova história ainda a ser contada (neste caso, da menina do começo da peça, Marina), a alma pede paz, e é de certa forma pela cumplicidade que nos mantemos atrelados ao jogo até o final.

Os atores são extraordinariamente bem preparados, mas não fazem da técnica a sua muleta – tudo tem sua hora, seu lugar e sua propriedade. A intimidade entre eles mesmos e com os temas trazidos à cena é total, e nos envolve. Quando, no correr do jogo, o absurdo se estabelece, às vezes se pensa “não, isso agora foi demais!”; mas logo o próprio jogo faz surgir a lógica particular daquela situação. Não parece pertinente falar aqui de “dramaturgia fragmentada”, dada a já dita fluidez das passagens de uma cena para a outra, a pertinência dos cortes e inserções que vão nos conduzindo e nos levando, e a gente sente – mais do que sabe – que entendeu tudo.

Sandra Parra para o FENTEPP

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teaser.

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Divertido revezamento pelos personagens de uma família

Ninguém falou que seria fácil. Felipe Rocha é o autor desta pequena pérola do nonsense em cartaz no Espaço Cultural Sérgio Porto. Os personagens da peça, pai, mãe e filha, trocam de intérprete no palco, em afiado jogo cênico. Nomes pouco conhecidos do grande público, os versáteis Rocha, Stella Rabello e Renato Linhares alternam diálogos com divertidos movimentos coreográficos. Nesta brincadeira levada a sério, há espaço para, em dado momento, os dois homens do elenco encarnarem os papéis de marido e mulher sem resvalar na caricatura. Em outro achado do espetáculo, um devaneio por momentos da vida como a velhice, encontros amorosos, a hora do parto ou a morte, Stella representa uma menina que se recusa a largar a chupeta — e usa argumentos bastante adultos para convencer o pai a manter o hábito da infância.

Carlos Henrique Braz – Revista Veja

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Lúdica exposição de flashes de vida

Macksen Luiz

A ação não é contínua. Os tempos não são demarcados pela sequência dos segundos. O jogo não tem regras que se precise conhecer de antemão. As interseções de cenas não se fazem pela lógica dramática. A recepção da plateia não é induzida a identificar signos. Ninguém falou que seria fácil se localiza para além dessas negativas, e se afirma como consequência de integridade criativa que propõe uma dramaturgia viva, revitalizada, que incorpora a participação do espectador como personagem atuante desta lúdica exposição de flashes de vida. Casais em desavença, crianças que não querem abandonar a chupeta, adultos indiferentes ao medo infantil, solidão como estado de beligerância com o mundo, sentimentos exibidos em painel de ternas observações sobre a rotina dos afetos. Aparentemente desarrumadas, como as vivências do cotidiano, revivem-se impressões emocionais que deixam em cena um rastro de cumplicidade. Capturar, de que maneira for, esses fragmentos de episódios afetivos, é o que o autor, co-diretor e ator Felipe Rocha lança a quem assiste a essa pequena jornada, que como se anuncia, não é fácil. Na ciranda de situações, surgidas num momento, retomadas, ou não, mais adiante, fala-se linguagem franca em ágil diálogo, e se rabisca a narrativa como um puzzle que se deixa manipular como sugestão para armar um desenho pessoal. No trio – Felipe Rocha, Renato Linhares e Stella Rabello – não há protagonismos, que fica por conta da dinâmica e fluência com que Alex Cassal, o outro diretor, imprime ao conjunto. Os intérpretes, plenamente integrados ao processo de elaboração cênica do texto, se transformam em prolongamentos da pulsação e vigor teatrais da escrita articulada para ser comparsa da expressão do ator.

www.macksenluiz.blogspot.com

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