Uma trama de sorrisos sutis

Desde que, em 2008, assisti à peça Ele precisa começar, o trabalho de dramaturgia de Felipe Rocha neste espetáculo sempre me volta à mente. Não apenas porque talvez eu tenha uma forte queda por solos. Mas principalmente porque identifico ali uma noção de dramaturgia que me interessa bastante e que é, ao mesmo tempo, singular e emblemática. Singular na medida em que parece intimamente articulada com a sua noção de atuação; emblemática porque, no fundo, mesmo lançando mão de um vocabulário muito particular, o pensamento sobre dramaturgia que ali se expressa parece falar a língua de muita gente. O que acontece também em Ninguém falou que seria fácil.

Os dois textos nos perguntam: O que é dramaturgia? E, diante deles, me sinto inclinada a responder que dramaturgia é trama – mas não, ou não apenas, no sentido de narrativa, mas sobretudo no sentido de rede. A dramaturgia é uma espécie de teia que captura o espectador pela subjetividade, pelo afeto. É um ardil e um convite. Uma construção dinâmica, viva – e portanto frágil – de um lugar que vai ser provisoriamente habitado. E, o mais importante, co-habitado.

Felipe Rocha e Alex Cassal, com sua equipe de fazedores de teias, articulam a cena de um modo que, a meu ver, dá ao espectador a sensação de que a peça está sempre sorrindo sutilmente pra ele, de que há sempre uma porta aberta pra ele entrar nessa construção. E, para fazer parte dela, o espectador precisa se desfazer do que ele já sabe sobre como se faz e sobre como se assiste teatro. Ele precisa esquecer as regras que ele já conhece e topar jogar com outras premissas. E ele vai precisar fazer isso de novo ao longo da peça, pois novos pactos serão estabelecidos até o final do jogo.

O que me parece emblemático nesta noção de dramaturgia, e que norteia o que eu identifico como dramaturgia contemporânea, é a demanda de disponibilidade do espectador. Cada peça é uma peça. Cada dramaturgia propõe uma ideia de teatro diferente. Não importa se a peça conta uma história, inúmeras histórias, ou se ela não conta história alguma. O que importa é a cumplicidade que se estabelece com o espectador, o seu prazer de entrar no jogo. Em Ninguém falou que seria fácil, nada está dado de antemão. Tudo o que se constrói também se desfaz com a mesma (aparente) facilidade.

E é nesse fazer e desfazer, combinar e descombinar, que a dramaturgia de Felipe Rocha se dá a chance de, a cada cena, a cada novo pacto que precisa ser estabelecido, convidar o espectador mais uma vez. Em poucos minutos, fomos capturados.

Arrisco dizer que um outro público se forma com esse tipo de dramaturgia. Um público mais cúmplice, menos “consumidor”. E, naturalmente, isso demanda outra crítica, outra forma de olhar. Não é à toa que tanta gente quis escrever sobre Ele precisa começar – é só ir lá conferir o blog da peça. O que mais me chama atenção nesses primeiros trabalhos dos Foguetes Maravilha é essa teia de cúmplices que parece se formar à sua volta. Ninguém falou que seria fácil é um novo convite aos espectadores, artistas, críticos, amigos. Eles precisam começar de novo.

Acho que a ideia é fazer isso junto.

Daniele Avila
Março de 2011

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Sobre Foguetes Maravilha

Ator, autor, músico, 1972> Rio de Janeiro.
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