É como uma brincadeira de criança

Dia 30 de agosto, no Centro Cultural Matarazzo, o grupo Foguetes Maravilha apresentou a peça “Ninguém Falou que seria Fácil”, com direção de Alex Cassal e texto e co-direção de Felipe Rocha.

A estrutura da peça se apresenta, logo de início, toda muito fluida. Seja pelo cenário, muito informal, que o público não se sente constrangido em atravessar logo que entra (e, eventualmente, enquanto sai), seja pela entrada do primeiro ator em cena, que se entra, massageia os pés, conversa com a produção, observa os espectadores enquanto terminamos de nos ajeitar. Aí já se insinua uma das características principais que estará presente ao longo de todo o espetáculo: a convenção da cena é toda escancarada, vai se estabelecendo diante dos olhos do público, como se fosse sendo construída ali, naquele momento, sem nunca ter existido antes.

É como uma brincadeira de criança que os atores jogam na cumplicidade com o público – e qualquer um que conviva com crianças ou tenha uma memória honesta vai saber que brincadeira, pra uma criança, é uma coisa seríssima. Seríssima! Há regras e uma ética de conduta que não pode ser rompida. Não se diz não a uma proposta; não se manipula a brincadeira em causa própria; não se exclui o parceiro por medo do que ele traz. Qualquer rompimento desse trato, aí sim, será punido com a exclusão – castigo máximo para quem quer brincar, afinal de contas.

Assim (como em qualquer brincadeira que se preze), a palavra constrói: o falado é verdade e acontece. As relações se estabelecem e se modificam, personagens aparecem e desaparecem, sem que, ao mesmo tempo, nunca se deixe de ver o ator junto com seus personagens – não direi “à frente” ou “por detrás”, para não dar uma ideia de hierarquia ou importância maior de um ou de outro, personagem ou ator. Eles estão em cena, eles constroem a narrativa, eles modelam uma linha do tempo muito particular, cheia de derivações e paralelismos, à qual alguém que sinta muita necessidade disso pode inclusive atribuir linearidade: a história de um pequeno núcleo familiar de pai, mãe e filha, que se desmancha, busca se reencontrar, é atravessado pela morte do pai, se resolve (?) na história do neto.

Esta poderia ser uma sinopse da peça; ao mesmo tempo, não faz a menor diferença. O que se vê ali, antes de tudo, é o retrato de uma geração. Das pessoas que hoje estão com vinte, trinta, quarenta anos de idade, para quem já é normal ser filho de pais separados, ser um casal separado com filhos, e a crise que isso gera já não tem nenhum cunho social ou moralista: são as falhas de continuidade da história pessoal, as ausências marcadas na personalidade, o peso da inversão de ter de ser mais forte que aquele que deveria ser seu forte – um pai que tenta ser maior que uma chupeta, e não consegue dar dois passos para a frente.

Uma geração que tem vontade de ficar parada, que tem ânsia de silêncio, que não sabe como lidar com a pressão de poder tudo – tudo – desde que. Assim, sem complemento. A nossa potência é, ao mesmo tempo, um monstro que nos espreita. No desespero do medo, projeta-se toda a possibilidade de felicidade no outro, que poderá encontrar em mim algo que eu jamais saberei o quê, e então… Então aquele, que eu responsabilizo por fazer a minha vida acontecer, tem de se tornar meu, minha propriedade, não importa a que custo; sem esse outro, a quem eu vou culpar quando tudo chegar em nada?

O público acompanha fascinado a dramaturgia que parece ir se construindo diante de seus olhos – e ri. Eu me pergunto: ri de quê?! Da crueldade das relações que se esfacelam, do medo de duas crianças sozinhas no escuro? Ri por aquilo não estar acontecendo com elas, e sim com outro? Mas então eu entendo porque o público ri. Porque tem leveza, porque é bom, é bem feito. Transgride com inteligência os clichês e o convencionalismos dos papéis sociais. Nos escancara, diante de nós mesmos; nos reconhecemos, e achamos graça. Ainda assim, é uma peça de uma tristeza infinita. Tanta solidão, tanta expectativa.

O cenário de poucos objetos é muito bem concebido, seja pela praticidade que oferece, colocando-se totalmente a serviço do jogo de cena, seja pela sua pela sua funcionalidade, no que concerne à construção dos incontáveis ambientes que se vão fazendo durante o desenrolar da peça. Cada objeto é ressignificado inúmeras vezes, e o espaço cênico é explorado em todas as possibilidades de linhas, recortes e pontos de vista – mais do que a organização da platéia em semi-arena faria supor. Esta riqueza de exploração também se apóia, com segurança, em um trabalho de iluminação não só eficiente, mas também altamente provocativo com relação à imaginação dos espectadores.

Embora se deva dizer que a montanha russa de emoções em que a peça nos coloca – tristeza, alegria, zombaria, amargura, e de novo alegria, etc., etc., se sucedendo com muita velocidade – , a certa altura, cansa. Não que não seja bom ainda, ou que deixe de ser interessante, pelo contrário. Mas quando parece que a história entra em resolução, e daí surge como que uma nova história ainda a ser contada (neste caso, da menina do começo da peça, Marina), a alma pede paz, e é de certa forma pela cumplicidade que nos mantemos atrelados ao jogo até o final.

Os atores são extraordinariamente bem preparados, mas não fazem da técnica a sua muleta – tudo tem sua hora, seu lugar e sua propriedade. A intimidade entre eles mesmos e com os temas trazidos à cena é total, e nos envolve. Quando, no correr do jogo, o absurdo se estabelece, às vezes se pensa “não, isso agora foi demais!”; mas logo o próprio jogo faz surgir a lógica particular daquela situação. Não parece pertinente falar aqui de “dramaturgia fragmentada”, dada a já dita fluidez das passagens de uma cena para a outra, a pertinência dos cortes e inserções que vão nos conduzindo e nos levando, e a gente sente – mais do que sabe – que entendeu tudo.

Sandra Parra para o FENTEPP

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Sobre Foguetes Maravilha

Ator, autor, músico, 1972> Rio de Janeiro.
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