Prêmios merecidos

Vencedor absoluto dos três maiores prêmios de teatro do Rio Janeiro, a saber, o Shell, o APTR e o novo (e bem-vindo) Questão de Crítica, “Ninguém falou que seria fácil” é o texto (encenado) do ano. Um dos motivos, talvez, o principal, seja o fato de, em 2011-2012, mostrar que o teatro do absurdo ainda dá conta de explicar o mundo, permite que nos identifiquemos com seus personagens e ainda apresenta situações que conhecemos bem. No ano em que se comemora os 100 anos de Nelson Rodrigues (1912-1980) e se atribui a Jô Bilac a responsabilidade de ser seu sucessor, no Galpão Gamboa nos encontramos com um novo Eugène Ionesco (1909-19994) ou, mais atual, um Jorge Diaz (1930-2007) brasileiro. Como nos célebres “A cantora careca” e “Desvario”, em “Ninguém falou que seria fácil”, o dramaturgo é um deus que olha o universo (dos seus personagens) de cima, jogando, brincando com eles como se fossem meros e tolos divertimentos, sem qualquer lógica ou responsabilidade. Daí sua metáfora para o mundo (real?) além da narrativa: por que uma história lógica com princípio, meio e fim numa vida com tantos acontecimentos absurdos? Não há liberdade, porque ela é o contrário de prisão. Não há início, porque ele antecede o fim. Não há certezas, porque elas são as respostas para as dúvidas. As coisas apenas há: personagens que entram sem ter saído, meios de histórias e figuras que pairam. Esse é o contexto do premiado texto e, também, da meritosa produção dirigida por Felipe Rocha e Alex Cassal.
Personagem, tempo e espaço: cada elemento ocupa um canto de um triângulo equilátero. Felipe Rocha, Renato Linhares e Stella Rabelo, na interpretação de diversos personagens, estabelecem positivamente lugares múltiplos, tempos que não se conectam e apresentam características contraditórias. Em todos, está disponível um excelente trabalho corporal, uma profunda investigação sobre diferentes registros vocais, além de, em conjunto, estar expresso um vibrante desenho de movimentação no palco de forma a estabelecer, sempre e novamente, mais e mais relações. Completamente aberto, sem rotunda, pano de boca ou bambolinas, o espaço cênico foi organizado de forma a providenciar múltiplos lugares dramáticos. No entanto, além dos previstos, novos surgem, atualizando a obra ao longo de toda a encenação. A história evolui na medida em que se estrutura pelo modificar-se constante e progressivo. A dramaturgia faz rir, faz emocionar, mas, sobretudo, dá cara e voz para reflexões sérias do mundo que representa. De repente, Stella Rabelo entra em cena com o mesmo vestido Mondrian com que estava na abertura da peça. Talvez essa seja a marca de uma circularidade que definirá o fim da apresentação. Ledo engano: mais está por vir e o retorno do vestido pode ter sido apenas um déjà vu, como tantos.
Os aspectos estéticos do espetáculo agem de forma bastante contribuitiva. São leves, interessantes, bonitos. Os figurinos de Antônio Medeiros permitem identificar auto-referências e o vestido Mondrian é só um exemplo. Roupas de baixo, mochilas e sapatos, em cada detalhe é possível estabelecer relações que se mostram internas ao espetáculo a que se assiste. A luz de Tomás Ribas age casada com o cenário de Aurora dos Campos: enquanto um oferece o espaço o outro constrói o lugar. Na trilha sonora, Rodrigo Marçal auxilia os personagens no desafio de não se apegar a nenhuma figura, mas avançar no constante encontro/abandono de opções em processo ascendente. Se o ritmo cai quando se está mais próximo do fim, é porque o público já sentiu a estranheza do início, já se acostumou com a vertiginosa loucura do enredo e da encenação e, então, precisa da catarse, que só terá espaço para acontecer após o fim da peça. Uma vez que “Ninguém falou que seria fácil” não é um espetáculo dramático, a manutenção do ritmo não é tarefa dos fatos, mas dos acontecimentos. O fim vem em boa hora, no limite talvez. Após ele, o aplauso e os prêmios merecidos.
Rodrigo Monteiro no blog Crítica Teatral

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Sobre Foguetes Maravilha

Ator, autor, músico, 1972> Rio de Janeiro.
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