Adorável brincadeira de criança

Por Lionel Fischer.

“Como em uma brincadeira de criança, um jogo de amarelinha fragmentado e mutável, os personagens saltam da infância para as angústias da vida adulta, da velhice para o encontro amoroso, da sala de parto para a morte. Assim que os espectadores se acomodam, uma discussão de casal inicia uma vertiginosa troca de papéis, que irá carregá-los por lugares, épocas e situações diversas. Um homem se torna pai mas não quer deixar o colo da mãe, uma filha argumenta racionalmente sobre as razões para não largar a chupeta, um jovem recém-formado decide hibernar, irmãos disputam comida e carinho em duelos cinematográficos, os filhos crescem e se tornam pais…”

O trecho acima, que consta do ótimo release que me foi enviado pela assessora de imprensa Mônica Riani, sintetiza de forma irrepreensível não apenas algumas das mais significativas passagens do presente espetáculo, mas sobretudo o espírito que o anima: uma brincadeira de criança.

Mas isto não significa, obviamente, que estejamos diante de uma montagem dirigida ao público infantil, e sim de algo que, através do lúdico, nos convida a sermos cúmplices de permanentes construções e desconstruções, inversões de papéis, recriação do real, e assim por diante, exatamente como fazem as crianças.

Em cartaz no Teatro Municipal Maria Clara Machado, “Ninguém falou que seria fácil” é o segundo espetáculo do grupo Foguetes Maravilha (o anterior foi “Ele precisa começar”). De autoria de Felipe Rocha, a montagem chega à cena com direção de Alex Cassal (co-direção de Rocha) e elenco formado por Felipe Rocha, Renato Linhares e Stella Rabello.

Como já deve ter ficado implícito, estamos diante da rara oportunidade de rever nossa postura no que concerne ao ato de assistir a um espetáculo. Se nos mantivermos aferrados à crença de que um bom texto deve seguir à risca os cânones que norteiam a dramaturgia tradicional, estaremos perdidos.

Mas se, ao contrário, nos colocarmos disponíveis para apreender o que nos é oferecido muito mais através de sentimentos e sensações do que de procedimentos lógicos e racionais, aí então deixaremos o Planetário convictos de que, a exemplo das crianças, podemos perfeitamente lidar com o real da vida sem que isto implique em renunciar à nossa tão esquecida capacidade de recriá-la por meio da fantasia.

Isto posto, torna-se evidente que tanto o ótimo texto de Felipe Rocha quanto a direção de Alex Cassal (com a parceria de Felipe) nos propõem uma espécie de co-autoria, nos demandam uma postura muito mais de cúmplices do que de meros espectadores. Ou seja: ou você entra no jogo ou não entra. Ou você é “capturado” ou não é. No meu caso, entrei no jogo e fui totalmente capturado. Daí minha felicidade durante todo espetáculo e após o mesmo ter-se encerrado.

Valendo-se de uma dinâmica cênica em total sintonia com o material dramatúrgico, com permanente alternância de climas e abruptos cortes que surpreendem e encantam em igual medida, Cassal e Rocha exibem o mérito suplementar de haverem extraído ótimas atuações do elenco – no caso de Rocha, suponho que deva ter permito ao parceiro de direção um valioso “olhar de fora”.

Renato Linhares, Stella Rabello e Felipe Rocha parecem ter nascido com a expressa finalidade de encarnar os muitos personagens de “Ninguém falou que seria fácil” – no caso de Rocha, é até compreensível…Exibindo performances irretocáveis, tanto no que diz respeito ao texto articulado como em relação às diversificadas composições físicas, o trio ainda evidencia maravilhosa contracena e comovente prazer de compartilhar o mesmo palco. Aos três, portanto, só me resta agradecer a noite tão emocionante e divertida que me proporcionaram, e desejar uma longa carreira para esta montagem tão apaixonante.

Na equipe técnica, Alice Ripoll assina uma impecável direção de movimento, sendo de altíssimo nível a expressiva iluminação de Tomás Ribas, a mesma expressividade presente na despojada e inventiva cenografia de Aurora dos Campos, na direção musical de Rodrigo Marçal e nos figurinos de Antônio Medeiros.

www.lionel-fischer.blogspot.com

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Escrevendo a cena do seu tempo.

de repente num rompante felipe rocha rompe com a roupagem teatral. manda o bom gosto às favas, faz do palco seu barraco. barroco? desde seu primeiro trabalho, “ele precisa começar”, a dificuldade extrema de se contar algo. se as grandes narrativas faleceram, então valem todas.
e felipe traz brilhante a vida pra dentro do palco. e leva o palco pra fora dele. a família, as viagens. se é difícil construir, então, que tudo se desconstrua. e ainda se aprende que se constrói, desconstruindo e se desconstrói, construindo. na cena tudo se move: cenário, luz, o corpo. as narrativas se amalgamam vertiginosas. tudo se mexe. tudo se move. capital volátil. bonde sem freio. em queda livre nesse espaço infinito. rio, brasil. mundo. nessa galáxia agora. felipe rocha faz uma visita guiada nesse ninguém ….
os personagens passam de mão em mão. renato, stella, felipe, sintonia perfeita na cena. alex cassal por trás da cena, orienta. “ninguém falou que seria fácil” é uma peça libidinosa, etílica. (a cena do sapo cansado, coelhinho roberval e o vovô é uma lenda ). parabéns a turma toda. escrevendo a cena do seu tempo.

Ricardo Chacal em CEPVINTEMIL

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Submersão e respiração de uma dramaturgia com teor de cena

Por Dinah Cesare

O melhor modo de apresentar as ideias que surgiram a partir do espetáculo Ninguém falou que seria fácil talvez seja tentar esboçar os traços de um pensamento que ainda não pode ser consumido pela escrita. O que seria um lugar comum da escrita, o fato de ser uma expressão da linguagem e, portanto, conter uma medida de indizível e de disforme, se evidencia pela matéria mesma do espetáculo configurado por uma narrativa que busca um trânsito entre a postura dos criadores, dos atuantes e dos receptores. Minha perspectiva aqui foi fisgada pelo o que Daniele Avila escreveu no texto que está no programa. Para refletir sobre o trabalho desenvolvido pela companhia Foguetes Maravilha, dirigida por Felipe Rocha em parceria com Alex Cassal, ela se refere a uma dramaturgia singular e emblemática:
“Singular na medida em que parece intimamente articulada com a sua noção de atuação; emblemática porque, no fundo, mesmo lançando mão de um vocabulário muito particular, o pensamento sobre dramaturgia que ali se expressa parece falar a língua de muita gente.”
A dramaturgia “articulada com a sua noção de atuação” sugere uma cena que potencializa o presente com atravessamentos temporais. Sim é possível dizer que isso é uma coisa óbvia, na medida em que existe uma dramaturgia escrita, mesmo que seja elaborada em consonância com os ensaios e as traduções realizadas pelos atores materializadas em suas ações. E ainda que a noção impressa, quando pensamos em obras, esteja tomada justamente pelo seu potencial de remissão, que cria naturalmente uma historicidade constituída pelo momento presente e pela rememoração. Porém, para chegar ao que estou querendo tracejar é preciso que se analise as condições de possibilidade que a encenação engendra.
O espetáculo Ninguém falou que seria fácil encena as relações familiares, existe um tema: a família e suas repercussões na formação de um tecido coletivo de subjetividade. A particularidade aqui pode ser percebida por uma dupla implicação. A primeira é a escolha de uma narrativa sob a visada da infância, de seus gestos, de suas construções imaginárias. Isso confere um tempo de constituição dos fatos próprio da apreensão do jogo infantil que não conhece outra coisa senão a transformação súbita, um eterno movimento de pegar e largar. Assim, a dramaturgia/encenação perfaz a produção da história que se trata de um “era assim” e que no “agora” não é mais. Nessa fluidez (dos jogos infantis e da história) existe tanto uma presença (um lençol torna-se realmente uma bandeira), quanto o seu desfazimento (o lençol, imediatamente, pode ser o teto e a porta da casa de brincar). Aqui já existe um duplo estampado no lençol que continua se insinuando como memória traduzida. Essa construção pode ser mais precisamente percebida como montagem. A ludicidade infantil é constituída por tal grau de abertura que serve para inspiração material de pensamentos epistemo-críticos. Pensemos a infância, não como um estado biológico ou uma idade cronológica, mas como uma instância que opera o enigma da origem, do desenvolvimento das formas. A perspectiva infantil também conta com a capacidade da imitação sem psicologismos e sem empregar sentidos sensatos. Promove o atravessamento de signos em uma semântica sempre aberta.
A segunda implicação aparece pelo desdobramento da primeira: sutis momentos de epifania. Estou me referindo às pequenas revelações dos afetos que formam o tecido familiar. Se por um lado a inspiração da dramaturgia partiu da marca deixada por algo que aconteceu na infância, sua tradução não buscou a factualidade, mas a sensação própria da afetação que o fato causou. E aqui, ela deu a ver o sujeito que busca a reflexão no retorno do sintoma, da irrupção. Esse movimento trouxe à encenação, não uma tensão, mas uma despojada espera pelo que pode aparecer. Para isso fica-se no tempo, mas um tempo remissivo aos desvios. O resultado tanto opera uma leveza no espetáculo, quanto uma graça sem a necessidade do riso. É possível perceber certos tempos esgarçados na encenação, mas que não se configuram como tempos mortos, muito menos como tempos que necessitam serem preenchidos, mas como leves surpresas, ou melhor, como pequenos lampejos da alegria, de afetos que se estabelecem no estar junto em família, ou na espera por alguma coisa que não se sabe exatamente o que é.
Já mencionei em outro texto como o trabalho de Felipe Rocha cria instâncias de sensações e mais singularmente quando isso de dá em interface com uma dança evanescente. Suas inserções de movimentos em Ele precisa começar, encenada primeiramente no ano de 2008, surtiam um efeito embreante que nos remetia à esfera da invisibilidade e da imprevisibilidade por meio da precisão e da plasticidade em um ambiente cheio de cisões espaciais e temporais. Em Ninguém falou que seria fácil estas inserções já surgem como desvios porque aparecem como coisas não acabadas, imprecisas, não consolidadas. Aqui o teor de montagem da dramaturgia encontra sua expressão mais pontual, mas esse teor está presente em toda a sua construção em devir na própria cena.
Esse sentido também aparece numa cenografia quase bruta, que serve como topos de suporte para as possíveis imagens suscitadas. Isso se dá também, de maneira inusitada, com o bar suspenso que não é manipulado, mas que insiste em sua presença e promove o desvio do olhar em uma performance necessária diante da imagem concebida como montagem. E assim, também guarda sua parcela de inacabamento. Talvez, como mais um traço, seja possível dizer que a cenografia de Aurora dos Campos e sua manipulação apontem para a fragilidade territorial que, paradoxalmente, a família nos deixa como legado. Ou, dito de outra forma, descortine o impulso que a família pode promover em direção ao mundo. No lugar da origem – e podemos ler também da dramaturgia – está sempre o movimento de fazer, desfazer e fazer outra coisa ainda.
Essa imagem perfaz o movimento empregado pela atuação/corpos/falas/roupas dos atores (as barras da escrita não têm a intenção de pura injunção, mas tentam dar conta de uma sensação ainda baseada por uma lógica própria das coisas como elas aparecem em cena). A palavra “aparece” indica um regime que transita pelo que é visível e suas zonas de indicernimento. Os atores não interpretam crianças, mas dão a ver falas e corporalidades em deslocamentos figurais. Compõem o quadro do devir sendo eles mesmos objeto e sujeito por meio de uma performance de distanciamento (suas falas não parecem coladas a uma idéia de verdade, justamente seus corpos de adultos não deixam transparecer esse desejo), ao mesmo tempo em que estão imersos no jogo. Além da tensão que se estabelece por meio dos corpos adultos e do jogo infantil, a atuação do próprio Felipe Rocha, de Renato Linhares e de Stella Rabello não parece ter como suporte nenhuma espécie de psicologismo e constrói assim a passagem de tempos por uma forma criada pela característica própria entre o que acabou e o que está por vias de surgir.
O jogo infantil também aponta para a construção onírica e a sensação de submersão na piscina que é objeto da rememoração que inspira a dramaturgia. Belo movimento de tradução que nos faz ultrapassar a imagem que está na origem. O desenho de iluminação de Tomás Ribas é um elemento que colabora para a materialização de zonas de quase apagamento e realiza isso quase que negativamente, sem se impor como recorte, mas favorecendo a percepção de margens para as imagens. Seriam as bordas da piscina sonhada? Como se cada um dos quadros, por assim dizer, que constroem a encenação se passassem no fundo da piscina da infância e seus momentos epifânicos fossem como subidas à superfície para respirar. Essa dialética proporciona uma fruição que revela a potência do momento do “agora” como lugar de reflexão, do jogo como estrutura de pensamento e desestabiliza várias sensações míticas sobre as relações familiares.

Dinah Cesare é mestra em Artes Cênicas pela UNIRIO, atriz, professora de training físico para atores e é integrante do Instituto do Ator no Rio de Janeiro.

Publicado em Questão de Crítica.

Publicado em Foguetes Maravilha

Uma trama de sorrisos sutis

Desde que, em 2008, assisti à peça Ele precisa começar, o trabalho de dramaturgia de Felipe Rocha neste espetáculo sempre me volta à mente. Não apenas porque talvez eu tenha uma forte queda por solos. Mas principalmente porque identifico ali uma noção de dramaturgia que me interessa bastante e que é, ao mesmo tempo, singular e emblemática. Singular na medida em que parece intimamente articulada com a sua noção de atuação; emblemática porque, no fundo, mesmo lançando mão de um vocabulário muito particular, o pensamento sobre dramaturgia que ali se expressa parece falar a língua de muita gente. O que acontece também em Ninguém falou que seria fácil.

Os dois textos nos perguntam: O que é dramaturgia? E, diante deles, me sinto inclinada a responder que dramaturgia é trama – mas não, ou não apenas, no sentido de narrativa, mas sobretudo no sentido de rede. A dramaturgia é uma espécie de teia que captura o espectador pela subjetividade, pelo afeto. É um ardil e um convite. Uma construção dinâmica, viva – e portanto frágil – de um lugar que vai ser provisoriamente habitado. E, o mais importante, co-habitado.

Felipe Rocha e Alex Cassal, com sua equipe de fazedores de teias, articulam a cena de um modo que, a meu ver, dá ao espectador a sensação de que a peça está sempre sorrindo sutilmente pra ele, de que há sempre uma porta aberta pra ele entrar nessa construção. E, para fazer parte dela, o espectador precisa se desfazer do que ele já sabe sobre como se faz e sobre como se assiste teatro. Ele precisa esquecer as regras que ele já conhece e topar jogar com outras premissas. E ele vai precisar fazer isso de novo ao longo da peça, pois novos pactos serão estabelecidos até o final do jogo.

O que me parece emblemático nesta noção de dramaturgia, e que norteia o que eu identifico como dramaturgia contemporânea, é a demanda de disponibilidade do espectador. Cada peça é uma peça. Cada dramaturgia propõe uma ideia de teatro diferente. Não importa se a peça conta uma história, inúmeras histórias, ou se ela não conta história alguma. O que importa é a cumplicidade que se estabelece com o espectador, o seu prazer de entrar no jogo. Em Ninguém falou que seria fácil, nada está dado de antemão. Tudo o que se constrói também se desfaz com a mesma (aparente) facilidade.

E é nesse fazer e desfazer, combinar e descombinar, que a dramaturgia de Felipe Rocha se dá a chance de, a cada cena, a cada novo pacto que precisa ser estabelecido, convidar o espectador mais uma vez. Em poucos minutos, fomos capturados.

Arrisco dizer que um outro público se forma com esse tipo de dramaturgia. Um público mais cúmplice, menos “consumidor”. E, naturalmente, isso demanda outra crítica, outra forma de olhar. Não é à toa que tanta gente quis escrever sobre Ele precisa começar – é só ir lá conferir o blog da peça. O que mais me chama atenção nesses primeiros trabalhos dos Foguetes Maravilha é essa teia de cúmplices que parece se formar à sua volta. Ninguém falou que seria fácil é um novo convite aos espectadores, artistas, críticos, amigos. Eles precisam começar de novo.

Acho que a ideia é fazer isso junto.

Daniele Avila
Março de 2011

Publicado em Foguetes Maravilha

como construir uma tenda com cobertas.

Vamos precisar de algumas coisas para começar. Eis a lista:

Sete bastões. Seis desses bastões são do mesmo tamanho e o sétimo pode ser um pouco maior.

E lençóis de solteiro e de casal. E um cobertor grosso para fazer o chão.

Por último, um bom pedaço de corda. Não use cordas sintéticas porque os nós não ficam bons.

Os passos para a montagem:

Afaste os móveis até que exista algum espaço entre eles. Não arranhe o chão.

Pegue três bastões do mesmo tamanho e arranje-os em forma de tripé. A base deve ser larga o suficiente para ficar ereta sem desabar. Amarre  o ponto de intersecção com o bom pedaço de corda e coloque o tripé no chão.

Faça um tripé similar com os outros três bastões de mesmo tamanho e coloque um pouco afastado do primeiro que você construiu.

Coloque o cobertor grosso no chão entre os dois tripés. E o lençol de solteiro sobre o cobertor, para que você tenha uma superfície macia para deitar.

Então coloque o bastão maior apoiado nos dois tripés. Use mais da corda para amarrar o bastão maior ao topo dos tripés. Neste ponto, a estrutura deve estar bem firme, sem risco de desconjuntar-se.

Agora coloque os lençois de casal sobre o sétimo bastão para cobrir completamente a estrutura. Cadeiras ou livros podem prender a base da tenda ao chão. Deixe uma abertura para entrar e sair.

É isso, a sua tenda está pronta, você já pode habitá-la. Leve uma lanterna, almofadas, e também livros de Paul Auster e Roberto Bolaño, filmes com Jean-Paul Belmondo e Didi Mocó, garrafas de espumante e salgadinhos.

Publicado em Foguetes Maravilha